Kilimanjaro PT – Parte 2

…Em nenhum momento eu me arrependi por estar la.

Dificuldades

Nos éramos um grupo de 16 pessoas visitando. Todos eram novos na minha vida. Nos tivemos que interagir e conviver enquanto passávamos por momentos difíceis enfrentando nossos próprios demônios, que poderiam ser chamados de necessidade pessoal, limitações e ou problemas.
Para cada 3 visitantes nos tínhamos 1 guia e 6 carregadores, 1 guia principal pra todos, 1 cozinheiro, 1 garcon, 1 assistente. Com toda certeza muita gente nos ajudando a realizar o nosso objetivo!

Ultima subida em direção ao topo
Na ultima parte do hiking nos saímos as 2 da manha do ultimo acampamento (Barafu), onde eu só dormi por uma hora apenas. A escassez de oxigênio, o pouco tempo dormido, a temperatura baixa, o cansaço e a altitude foram meus maiores problemas. Os guias nesse momento se tornaram nossos carregadores, levando as nossas mochilas pessoais, com agua comida e algumas pecas extra de roupa pra o topo. Enquanto subíamos no meio da noite, eles iam cantando musicas locais do tipo ‘Hakuna Matata’ pra nos motivar a continuar e alcançar o topo.

Alcançando Stella Point – 18,652′ ft 
Quando cheguei la em cima eu estava tão sensível que chorava como uma criança. Uma criança que estava mais perto do céu e das estrelas, bem perto da minha mainha.
Com a minha conquista no mesmo dia do aniversario dela me fez chorar. Se estivesse entre nos, secretamente estaria orgulhosa de mim e diria para todos: – Essa e minha maluquinha!
Não sei se alguém notou mas eu estava cantando ‘Como e’ grande o meu amor por voce‘ enquanto subia. Era a mesma musica que eu costumava cantar pra ela quando estava entre nos.

Dificuldade na primeira parte da descida
A descida foi outro momento difícil pra mim. Agora relembrando, depois de todos os problemas que enfrentei, eu reconheço que o meu maior erro foi literalmente correr do meu grupo em direção ao ultimo acampamento. Foram 5.5km de subida, começando no Barranco Wall 13.500 pés de altura, ate Karanga Camp 15.300 pés. Não sei o que aconteceu comigo. Eu não conseguia entender porque íamos tao divagar no momento em que poderíamos estar indo rápido. Então eu decidi correr seguindo os carregadores experientes que estavam muito mais adiantados. Tudo o que eu queria era chegar no ultimo acampamento com mais tempo pra descansar. Não levei em consideração que subir correndo e em altitude elevada, sem tempo suficiente para descansar os músculos ou parar pra beber agua, me traria algumas consequências que eu estaria pra vivenciar.

Usar ou não usar Diamox
Por conta disso tudo eu tive problemas. Se não fosse por Raymond, meu guia, eu não acho que estaria aqui pra contar a historia. Tudo o que eu queria naquele momento era parar pra dormir, em qualquer lugar e qualquer posição. Eu dormia profundamente em toda micro parada, com direito a sonho e tudo. Era sempre o mesmo sonho. Sonhava que estava presa dentro de uma piscina coberta, a agua vermelha, e não havia saída. Estranho ne mesmo?! Mas e incrível como tudo se explica na doença das alturas, também conhecido como mal da montanha ou hipobaropatia. Continuo sem saber a eficiência do remédio Diamox que tomei nos últimos dois dias antes da escalada final, pra combater os efeitos da altitude. Meu medico insiste que bastante agua funciona melhor que o remédio. Mas eu não estava certa disso. So queria ter certeza de que a altitude não me impediria de finalizar a minha subida, portanto optei por tomar o remédio. Mas ainda assim tive problemas de delírio e fadiga.
Meu guia quase me carregou pra baixo. A neve que caia em no chão de terreno vulcânico não ajudava em nada. A cada passo meu pé entrava fundo no chão misturando a neve com a areia fina formando uma lama, e fazendo difícil levantar o pé pra andar.

Uma vez alcançando em torno dos 16.000 pés ja começou a ficar mais fácil respirar, e melhorava a cada passo. Exceto pelo cansaço que se recusava a me deixar sozinha.
Chegamos no Barafu Camp em torno das 11 da manha, de onde eu havia acabado de sair as 2 da madrugada. Basicamente essa ultima estirada me durou 19 horas dentro de um espaço de 26 horas. Cada um de nos teve o seu próprio tempo e ponto de alcance. Esqueci de mencionar que uma das pessoas que estava no grupo, teve problema sério de altitude, ao ponto de vomitar sangue e desmaiar. Foi carregada pra um determinado ponto pra aguardar pela ambulância pra levar pra o hospital mais próximo.

A rotina das ultimas 24 horas
Voce talvez pense que 7 horas de espaço entre os dois últimos dias de caminhada deveriam ser suficiente pra ter um bom descanso. Porem isso não e verdade. Definitivamente não foi suficiente.
Esse tempo foi usado pra esvaziar a mochila da ultima caminhada; se preparar pra comer ( esqueci de mencionar que nos tínhamos um restaurante improvisado! Uma grande barraca com uma mesa comprida cercada de cadeiras, onde nos reuníamos para as refeições e as reuniões com o guia principal pra que nos passasse o roteiro do próximo dia); ir ao banheiro ( uma tortura/ mais um dos nossos problemas); higienizar (banho de lenço humedecido); trocar de roupa; preparar imediatamente a mochila pra o próximo hiking pois agora nos sairíamos na madrugada com destino ao topo; por as roupas que iria usar dentro do meu saco de dormir pra que aquecesse com o calor do meu corpo quando eu fosse dormir; reabastecer as garrafas de agua e o camel bag; trazer snack calórico (pra essa ultima subida, devido a altitude, e melhor consumir carboidrato e armazenar glicogênio, pois ele se converte em glicose, que se transforma em energia quando seu corpo precisa). No final das contas eu estava tão ocupada e ansiosa! Muita coisa acontecendo e muito pra fazer. Dormir estava no final das prioridades.

Ultima noite
Depois de Barafu Camp (15.300 pés) a descida se tornou muito menos penosa. Nos passamos a ultima noite no Mweka Camp, que foi votado o melhor dentre todos que visitamos.
Enquanto o final se aproximava eu só pensava em um longo banho, dormir numa cama de verdade, e ter pelo menos 2 horas de deep massagem!!!
Naquele momento todos já estavam mais próximos, comunicativos, felizes e com boa energia.

Ultimo dia
No ultimo dia, quando acordamos pela manha, os guias e carregadores nos felicitaram com um discurso. A satisfação era mutua por estarmos em segurança e com saúde. Em seguida fizeram uma apresentação improvisada de uma meia hora com cantoria e dança nativa. Eu estava certamente muito feliz por fazer parte do grupo.

Na hora da gorjetas
Ultima parada, um reservado próximo ao portão de entrada/saída. Nos reunimos para juntar as nossas gorjetas/doações. Fizemos a divisão entre os recebedores beneficiados previamente listados com os nomes de cada um deles e o valor que estariam recebendo. Eles fizeram entre $50 a $250 dólares cada, do carregador ao guia principal. Fizemos questão de agradece-los pelo bom trabalho e esforço em nos proporcionar segurança e conforto na medida do possível. Entregamos o dinheiro em mãos um a um pra nos certificarmos de que eles estariam recebendo cada um a sua parte.
Ao final da cerimonia de gorjetas, eles cantaram e dançaram felizes pelo reconhecimento do esforço e importância deles no sucesso da nossa experiência.
Algumas pessoas do nosso grupo e eu também caímos na dança: Um mix divertido de funk com agachamento. Não consigo pensar em nada melhor pra depois de subir 19.345 pés de altura e descer os mesmos 19.345 pés ‘de descida’. =)

Coisas positivas dessa aventura pra mim:
O sentimento de missão cumprida!
Novos amigos na minha vida!
A oportunidade de conhecer mais de perto uma nova cultura, e me aproximar deles.
Conhecer e vencer os meus limites!
Ver cenários tão mágicos e lindo que nem mesmo a mais perfeita foto ou filme vão conseguir retratar.
Estar em contato com a natureza respirando ar puro e acordar com o canto dos pássaros.
Reafirmar os valores das coisas mais simples no nosso dia a dia como um banheiro limpo, uma cama, casa, e chuveiro!
Experimentar o sentimento forte de agradecimento a Deus pela minha saúde, vida, família, oportunidades, felicidade e entusiasmo por tudo o que faço.

Coisas negativas dessa aventura pra mim:
Absolutamente nada!

Dicas
So para conhecimento, esse hiking não e técnico e portanto dependendo de qual trilha você escolher, não sera necessário que você seja jovem e com um corpo sarado. A única exigência e a de que você tem que estar em boas condições de saúde, e ser persistente.

Considera a possibilidade de comprar seguro de viagem pra hikers, e uma garrafa de oxigênio por la mesmo ja que tem as limitações no transporte aéreo. Isso se a empresa de turismo que você esta usando não tem pra oferecer, como era o caso da que usei. Voce pode se arrepender por não obter isso e por em risco toda a viagem.
Quanto mais novo maior e a chance de problema com respiração.

Se você optar pela trilha Machame, se certifica de que serão 7 dias completos de hiking. Dessa forma você vai poder dividir as últimas 24 horas de hiking em 48 horas e ter tempo decente pra dormir no Karanga Camp e descansar, alem de mais tempo pra aclimatar.
Trás algum calcado confortável pra usar no acampamento e que seja fácil de tirar e botar.
Pra subir o Kilimanjaro você vai ter ajuda dos carregadores pra levar a sua sacola de viajem (duffle bag). Portanto se certifique de que não sera pesada e põe o seu nome nela pra que os carregadores não se confundam. Convém também colocar sua roupa num sacão plástico e dentro da duffle bag pra proteger da chuva certa, que pode molhar tudo.
Leva uma meia pra cada dia por embaixo da meia grossa de la. Dessa forma você poderá reutilizar a meia grossa se faltar ou molhar.
Nao esqueça do down jacket, wind breaker e rain jacket.

Meu hiking foi de 28 de janeiro a 3 de fevereiro.
Eu trouxe shorts pra a montanha mas acabei os usando apenas pra o safari.
Mas essa vai ser uma conversa pra outro dia.

Leave a Comment